Tempo-Mão
1/2/1998

 

Há um tempo, Del Pilar Sallum fotografa as mãos – exclusivamente suas mãos laboriosas. Nelas, as linhas do desenho seguem fielmente o movimento das amarrações dos fios metálicos que as aprisionam e, em seguida, as liberam. No registro da fotografia permanece o testemunho do percurso ritmado da linha inscrita na pele entumecida. A linha, contudo, não se manifesta como movimento, como expressão gestual, mas como inscrição integrante do corpo revelado. Gradativamente – especialmente nos trabalhos mais recentes - a identidade do registro fotográfico tende a se tornar mais e mais evanescente, e, ao perder as reminiscências documentais, faz-se mais autônoma. 

Em trabalhos imediatamente anteriores, o negativo fotográfico multiplicava-se numa somatória de inversões de si próprio, para compor a imagem positiva. Agora, a criação de uma nova massa epidérmica ainda se dá a partir da duplicação de um mesmo fotograma, mas a junção passa a ser feita no computador, resultando numa fusão homonomorfa que elimina quaisquer vestígios de dobrez. A abstração resultante não permite mais o acesso à uma informação direta, revelando-se como outro corpo que não está lá: a flexão da imagem duplicada não se dá pela simultaneidade da percepção, mas através de uma rotação interna de um corpo que se desfaz para que possa surgir um outro. 

A mão, o objeto fotografado inicialmente, passa a esconder cada vez mais sua identidade: retrai-se, para ressurgir como outra coisa, enigmática, com uma densidade sensual assombrosa, reforçada pela pátina luminescente de pigmentos aplicados à mão, antes mesmo dela sofrer a inscrição dos sulcos provocada pelos fios metálicos, quando então está pronta para ser fotografada. Nos procedimentos subsequentes, isto é, nas mutações por que passa o negativo ao ser manipulado no computador, a imagem por fim positivada reconstitui-se como fragmentos de um novo corpo híbrido, mas unitário, que reelabora suas próprias estruturas no deslocamento das referências e na descontinuidade imposta pela explosão de escalas. Ademais, a dimensão monumentalizada da revelação fotográfica provoca uma implosão granular da pele exangue, conferindo-lhe zonas de densidade túmidas e crestadas, com curvas e reentrâncias permeadas por áreas de luz e sombra. 

Em busca de um sentido que já não é possível resgatar em sua própria memória, este corpo está à procura de um novo equilíbrio entre desejo e subjetivação, sabendo de antemão da precariedade deste resgate. A materialidade exacerbada da carnação que o engendra requisita um olhar de alteridade, que possa abarcar a descontinuidade imposta pelo deslocamento das referências, assim como a idéia de perda e diluição do sujeito, de despersonalização e de anonimato. As alusões a uma instância de forte entonação erótica se depara frente a frente com uma contaminação ocasionada pela perda vertiginosa da individuação. Barthes bem sabia que "a vertigem é aquilo que não acaba: desprende o sentido, remetendo-o a um tempo posterior".1 

Diante deste impasse, da impossibilidade de relacionar conteúdos, só é possível recorrer à rearticulação interna, onde o jogo da decomposição de uma forma implica na reafirmação de outra. Longe de reduzir um corpo a outro, a exasperada sensualidade do novo corpo proclama sua autonomia, mesmo que precária. Dir-se-ia que estas imagens oscilam entre inscrição e esquecimento, entre vida e morte, entre lembranças já muito vagas e o anúncio do futuro, sem poder sequer calcar-se no presente: afinal, o tempo é incerteza permanente. 

(1) Barthes, Rolaand. "Réquichot et son corps" in L’Obvie et l’obtus. Paris, Seuil, 1982. P. 192 

(Folder). Exposição Diálogos SESC Paulista - São Paulo; 1998

 

Stella Teixeira de Barros 

Corpo/Suporte

Body/Suport

Maria Izabel Branco Ribeiro

Del Pilar Sallum

Del Pilar Sallum (english)

Maria Izabel Branco Ribeiro

 

Os Fios da Matéria

Materic Threads

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Tempo-Mão

Time Hand

Stella Teixeira de Barros

A Mão Revelada

The Revealed Hand

Stella Teixeira de Barros

 

Temporada de Projetos

Seasons of Projects

Cristiana Mazzucchelli